Korsain é uma lenda da cena de dubstep no Brasil

O produtor, que acaba de lançar um EP pela Infernal Sounds, explora uma sonoridade autêntica e brasileira do dubstep

Korsain é uma lenda da cena de dubstep no Brasil
Foto: (Arquivo pessoal/Korsain)

No final do mês passado, Korsain, produtor de dubstep do interior de São Paulo, lançou o EP +55 pela Infernal Sounds, label londrina que registra a vanguarda da bass music global.

O Korsain é um dos maiores nomes da cena de dubstep e grime do Brasil. As suas produções exploram a bass music de uma ótica verdadeiramente brasileira, e são essenciais para o entendimento desse cenário em nosso país.

Além dos projetos instrumentais, o produtor colaborou com diversos nomes da cena do grime nacional, estando envolvido em diversos que projetos que ajudaram a definir a sonoridade da nossa cena. Pensando em tudo isso, troquei uma ideia com ele para entender o que está por trás desse novo lançamento e qual foi o seu caminho para chegar até aqui.


A gente pode começar falando sobre o seu último projeto. Qual é a importância desse lançamento e qual é a pegada dele?

O EP saiu pela Infernal Sounds, uma label lendária de Bristol, que já tem mais de 10 anos. É a label do Drew, e já lançou nomes como Substrada, Bukkha, Killa P, entre outros do mundo do dubstep. São três tracks em 140 BPM, mais voltado pro dubstep. Uma das faixas flerta um pouco com grime, com um MC que se chama Rakjay, que tá bem envolvido nesse cenário de bass music. É mais puxado pro dubstep/grime — tem gente que fala que é BR dubstep, por mesclar com funk, entre outras coisas.

Capa de +55 EP

Esse EP já tava maquinado desde o meio do ano passado, mas como é uma label muito grande, eu consegui lançar esse ano, e ele tem uma grande importância na minha carreira. Eu sou um cara que faço música — não faço pensando muito no que os outros vão querer, achar, ou pensar sobre. Eu não espero nada em troca, só faço a parada pra mim mesmo.

É um desabafo comigo mesmo. A música é uma parada que pra você se frustrar é muito rápido, muito fácil. Não dá pra entender, falando de mercado, de como que a galera consome, o que a galera pensa. Isso é um bagulho que eu já abri mão.

Qual foi o seu primeiro contato com o dubstep?

Eu conheço o dubstep desde 2008. Na época eu curtia muito hardcoreEMO, reggae, triphop — eu venho desse cenário, então eu já flagrava o que era dub, só que aí eu conheci o dubstep UK. Eu tinha uns parceiros que eram muito ratos de sebo e eu vivia trocando CD com eles.

Um desses CDs era uma coletânea, e tinha várias tracks, não só dubstep. Uma delas era do Skream, e eu pirei naquilo. Eu falei: "é isso, cara. Esse tipo de música eletrônica que eu gosto". Na época, pelo menos aqui na minhas áreas — eu sou do interior de São Paulo, uma cidade praticamente na divisa com o Paraná — pegava muito trance, house, rave, essas paradas. Eu gosto, mas é só uma hora curtindo e tchau, tá ligado? Já fica maçante e tudo igual pra mim.

Korsain produzindo em 2014 (Arquivo pessoal/Korsain)

Eu achava da hora esse lance da música eletrônica, mas tinha que ser um bagulho mais lento, mais cravado, puxado pro 4x4. E aí eu conheci o dubstep. Eu tinha banda de hardcore, eu sou baixista, então foi tudo interligando, só que o meu contato real com o gênero, com bass culture, foi no dub. Quando eu comecei a colar em rolê de sound system e comecei a tocar mais essas paradas.

Teve um hiato muito grande do dubstep aqui no Brasil, quando todo mundo desanimou. Eu continuei fazendo e outras pessoas também, mas como é a vida, alguns migraram para outros estilos, outros focaram em outras coisas.
Após esse hiato de cenário, voltou já com o grime em destaque.

E foi o grime que puxou esse movimento de volta?

O grime deu um revival pela questão dos 140 BPM. Já tinha grime antes, só que era muito DJ. O grime catou essa notoriedade, não com os produtores ou os DJs daqui — foi mais com os MCs. No momento que deu o holofote pro MC, foi quando começou a popularizar.

Tem o momento antes do Brasil Grime Show e o pós Brasil Grime Show, tá ligado? A galera chegou num momento que o trap já tava maçante pra caralho, tava bem chato. A galera começa a entender e estudar o que é grime, entender o porquê do rewind, todas essas coisas que vem lá de trás, do sound system. Nessa época, eu morei no Rio de Janeiro por um tempo — trampei lá, fiz várias conexões. Quando eu cheguei lá, o diniBoy e o ANTCONSTANTINO já conheciam meu trampo, e me receberam de braços abertos.

Todo mundo ali tava aprendendo mais sobre a cultura. Eu vi a Yvie fazendo a gestão dos bagulhos, quebrando a cabeça pra fazer evento acontecer e ocupando lugares, foi bem importante, pra eu me entender como artista. De ter um firmamento, entender como funciona algo profissional.

Olhando para esse início da cena de grime no Brasil, com o Brasil Grime Show, você participou de projetos com diversos MCs da cena. Como você acha que eles se relacionam entre si? O que marcou esse momento para você?

Eu acho que o momento de cada um é diferente, tanto por uma evolução minha quanto dos MCs. Até então, eu não trampava muito com MC, então foi massa abrir essa perspectiva de que cada um é um universo. Eu sou do interior de São Paulo, aí eu colei pro Rio pra trampar com música. Como produtor, foi muito foda, de catar bagagem, aprender a ouvir, a destilar as ideias das pessoas, tá ligado? Ainda mais sendo de outro estado, é outra cultura dentro do próprio país.

Nesse momento, no Rio de Janeiro, um pouco antes da pandemia, foi um boom. Tanto que o grime brasileiro tem destaque pra fora por uma questão de originalidade. Se você pegar grime de qualquer lugar ali da Europa ou do mundo, os caras vão usar os instrumentais de grime clássico ou naquele modelo — o que vai mudar vai ser a lírica da parada, o idioma. No Brasil, não.

Nessa época, a gente já tava pensando que, além de mudar o flow, que os caras já foram puxando mais pro lado do funk, a gente também mudou os instrumentais, mesclando com funk e mudando timbres. Eu gosto dos beats clássicos de grime, eu acho foda, só que já não dá mais, tá ligado?

Isso também deu uma diferença, porque a galera ouviu e falou: "eles tão cantando em outro idioma, em outro flow e ainda é outro tipo de instrumental, não tá a mesma coisa, o mesmo timbre". Tem algumas características iguais, mas não a estética sonora num geral. Acho que isso foi um ponto que a gente conseguiu ter destaque, da galera olhar e falar: "pô, mano, que foda, que diferente".

Agora que o grime tá nesse lugar, com uma sonoridade e uma cena cada vez mais construída, como você enxerga a relação com gêneros como o dubstep e o UK garage, que fazem parte desse mesmo universo?

Eu falo que o UK garage, o drum 'n bass, o jungle, o dub, o grime, eles são primos. É quase a mesma coisa, só que com velocidades diferentes, com métricas diferentes. Se você cata pra ver, é o mesmo timbre (em algumas ocasiões), mas em caminhos diferentes, e independentemente o BASS vai ser o protagonista. Então eu enxergo que eles são primos e tá tudo certo.

Lá fora, já não é bem assim. O que é dubstep é dubstep, o que é grime é grime. É meio que cada um no seu quadrado, por mais que eles somem e conversem entre si. Aqui no Brasil, a gente abraça tudo. É totalmente plausível misturar isso e colar junto, sabe? No final, tá todo mundo no mesmo barco.

Gravação do primeiro Boiler Room da América Latina de grime com MCs (Arquivo pessoal/Korsain)

E o cenário de dubstep, segue vivo hoje em dia?

Hoje em dia, existe um cenário de uns manos mais jovens que seguem na saga. Uma geração nova do Brasil, eu posso citar o Futsu, o Starkenoten, o JG Dubz (que na época do DUBSTEP NA RUA era o nosso mascote, 16 anos e o moleque tirava uma baita som — e hoje nem se fala…), Sucateiro, FUNGI, Ovnicius, ERFRO, HRKN, ROG, entre muitos outros.

Eu acho bem massa, eu acho que tá bem representado. Cada geração comunica da sua forma, tanto em questão de mídias quanto em questão musical. Eu acho que no lance do dubstep, assim como o grime, rolam vários hiatos. Não é um bagulho que vai acabar, parar — igual a galera tem o costume de falar "dubstep is dead".

Pelo menos notando aqui no Brasil, é uma coisa muito de hiato. E também têm os caras da geração antiga que estão ate hoje na atividade, com dubstep ou não: Ecoalaize (SP), MU540 (SP), Aghata (SP), KENYA20HZ (RJ), Denso/ITAL BEAT (DF), RASSAN (DF), CAVALASKA (SP), DUBALIZER (SP), BOSS BASS (RJ), DJ HARD (SP), U-DuB240! CREW (SP), galera de Curitiba também — Ganesh, Toresin (D-SOLUTION), THD, Alienação Afrofuturista, Sala, LowC — Mr. Zambi (SP), que é um dos fundadores da U-DuB 420!, um dos maiores sound systems voltados para dubstep, e até hoje rola o Bass Stage em SP (fica a dica).

DUBSTEP NA USP, organizado pela U-DuB 420! em 2016 (Arquivo pessoal/Korsain)

Todos esses gêneros fazem parte desse universo do que a gente chama de UK music. Você acha que a gente pode falar de uma sonoridade verdadeiramente brasileira dentro dessa cena? E o funk?

Cara, 100% brasileiro, eu sinto que o que seria a nossa bass music seria o funk. A UK music é importada, e a gente bota a nossa verdade — falando por mim, pelo menos. Eu gosto muito de botar essa roupagem, de ter esses elementos brasileiros. Assim como os gringos também fazem os funk deles (apenas um de muitos exemplos), e firmeza, tá tudo certo. Os cara pegaram a nossa batida e misturaram.

Só que a música brasileira tem um bagulho, que eu ainda não consegui achar a palavra certa pra explicar. É um certo tempero, que só brasileiro ou latino consegue tirar. Eu não sei se isso tem a ver com equipamentos, com a geolocalização, com o clima — todo esse lado humano e perceptivo da parada, sabe? E eu ouvia isso no meio dos músicos — um brasileiro toca blues, jazz, agora um gringo, se o cara não for foda, ele não vai conseguir tocar samba, bossa nova, música caipira regional, vai ficar meio quadrado.

Eu noto que, na música eletrônica, também tem um pouco disso. Assim como se pegar algo muito regional de qualquer outro lugar — a gente também vai ficar um pouco perdido.

Korsain e Mu540 (Arquivo pessoal/Korsain)

Mas tem um lado humano, de troca e parceria, que conecta todas essas cenas, né? Como é a sua relação com o pessoal de fora? E o que você acha que conecta todas essas pessoas de culturas diferentes?

O Oxóssi (USA/BR) foi o primeiro gringo que me procurou pra fazer tour aqui no Brasil — ele é um artista da Deep Dark Dangerous, que é uma label gigantesca — e a gente fez essa tour pegando Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Na sequência, veio o Chad Dubz (UK), um mano que é da segunda geração de dubstep da Europa. Eu já tocava os sons dele, e ele veio falar comigo. Ele foi o segundo gringo que eu trampei, artista da Deep Medi Musik (UK), que é uma das maiores labels de dubstep.

Eu fiz o mesmo circuito com ele e também deu bom. E tipo assim, qual a chance do Chad Dubz dormir no quarto de visita aqui de casa? Depois veio o DJ SQUAREWAVE (UK), fundador da NEW WOLRD AUDIO e irmão do SUKH KNIGHT, OME (Alemanha) e LOCUS SOUND (UK).

Os caras ficaram aqui na minha casa, conheceram a minha família. Eles viram a realidade que é fazer o bagulho no Brasil. Isso também foi meio mágico, nesse quesito dos caras entenderem, mesmo, como que é aqui, que é calor pra caralho, que a gente faz com o que tem — a gente tira leite de pedra, tá ligado? Não é que nem os caras de lá, que, em um mês trampando de garçom, conseguem montar metade de um home studio.

Foi muito legal esse lance dos caras entenderem a nossa realidade financeira, social, comunitária. Falando aqui do interior, se eu sair ali e ver o tiozinho da esquina eu vou falar: "opa, tudo bom? Bom dia" — o básico. Os caras não tem muito isso, não é muito comum. Esses detalhes também foram da hora de entender o lado de cada mano, de cada país, através do dubstep.

Pra mim, isso vale muito mais do que a música em si. "Ah, o cara é um artista foda" — não mano, calma. É conexão humana, até porque ninguém aqui é milionário com isso (tirando o Skrillex [risos]). Então, é um pouco sobre isso.

Uma das coisas que eu mais gosto, além da música, é essa forma de conexão, de se conectar com as pessoas por causa de uma coisa que ambos amam igualmente. E isso é um bagulho que, às vezes, a galera perde um pouco, esquece um pouco disso e só quer número, sabe? Isso é um bagulho que me corrói muito nessa geração nova. E eu não digo nem dos artistas, mas do modus operandi da cena.

Não é só sobre o que cada um tem a oferecer — é sobre fazer conexões, amizades, que no fim das contas, é a única coisa que a gente vai levar. Por isso, eu acho da hora, eu colo e falo bastante com a nova geração do dubstep. Por ainda ter essa mesma força de vontade que eu tinha naquela época.

Isso é um bagulho que eu acho super plausível — essa vontade de fazer acontecer. Eu admiro pra caralho e foda-se se os moleques começaram ontem ou se já faz tempo. O importante é ter essa força, sabe? É mais sobre isso, quando a gente fala de um gênero que não é muito conhecido — é muito importante pra popularizar e fazer mais pessoas curtirem.


Ouça +55 EP, já disponível nas plataformas digitais, e acompanhe o trabalho de Korsain nas redes sociais.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora